mo[vi]mento

Abri os olhos com dificuldade, mas nada vi. Me esforcei pra achar um motivo pra me levantar da cama, mas o que me convenceu foi a necessidade de fazer o xixi matinal. A vizinha gritou com o passarinho pela enésima vez. Não tomei café porque o relógio me proibiu de fazê-lo. O mendigo que esperava a vida passar entre uma lixeira e outra me pediu em namoro – e me fez rir pela primeira vez no dia.

O desconhecido passou no mesmo horário e eu tentei desviar o olhar – talvez me preocupar com o cadarço desamarrado, mas havia deixado as amarras para trás. A velhinha que esperava o ônibus usava chapéu, óculos redondos, um sorriso largo no rosto e julgava me conhecer só de me olhar. Esqueci o blazer em casa de propósito, para passar o dia sentindo frio – ao menos sentiria alguma coisa.

Minhas entranhas se estranharam e fizeram a náusea bater à minha porta – não atendi; detesto visita surpresa. O gosto insosso do almoço acusava que meu paladar havia saído para uma volta sem compromisso com o meu ânimo. O telefone pulou com a mensagem que dizia “sua cintura é legal de apertar” – e me fez rir pela segunda vez no dia. O som do piano longínquo que entrava pela janela fez carinho no coração. Os chocolates se propuseram a me ajudar a contar regressivamente até o fim da vida, só para deixar os números mais doces. O carteiro apagou as luzes e deixou um bilhete debaixo da porta: “a questão não é pra que você serve, mas o que serve pra você”.

enchanté!

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